Aristóteles e a Inteligência Artificial / Fernanda Monzato Aristóteles e Inteligência Artificial
Artigo publicado em revista de filosofia defende formação humana como elemento central para a governança da IA
Pesquisadores Everton de Jesus Silva e Fernanda Monzato Machado de Jesus defendem que a governança ética da inteligência artificial (IA) deve ser orientada pela filosofia de Aristóteles. A proposta foi apresentada no artigo “A Primazia da Phronesis: Um Modelo Formativo para a Governança Ética”, publicado na revista Síntese: Revista de Filosofia.
Segundo os autores, os modelos atualmente predominantes para regular e orientar o uso da IA apresentam limitações diante da crescente complexidade dos sistemas algorítmicos. O estudo analisa especialmente as abordagens baseadas em regras jurídicas e princípios universais, bem como aquelas fundamentadas na avaliação das consequências das decisões tecnológicas.
Limites dos modelos atuais
De acordo com o artigo, uma das principais referências da chamada perspectiva deontológica está na filosofia de Immanuel Kant, que defende a formulação de normas universais para orientar a ação moral. Na governança da inteligência artificial, essa visão se traduz na criação de regras, protocolos e legislações voltadas para o controle dos sistemas.
Outra abordagem examinada pelos pesquisadores é o utilitarismo, corrente filosófica que busca maximizar benefícios e reduzir prejuízos por meio da análise das consequências de cada decisão.
Os autores argumentam, porém, que ambas as perspectivas enfrentam dificuldades quando aplicadas aos sistemas contemporâneos de aprendizado profundo (deep learning). Segundo o estudo, a complexidade desses modelos pode dificultar a identificação direta de responsáveis por determinadas decisões automatizadas.
Esse cenário favorece o surgimento da chamada “lacuna de responsabilidade” (responsibility gap), situação em que não há clareza sobre quem deve responder moralmente por uma decisão produzida por sistemas autônomos. O artigo também menciona as chamadas “zonas de impacto da responsabilidade” (crumple zones), nas quais indivíduos acabam assumindo consequências de processos sobre os quais possuem controle limitado.
Phronesis como fundamento ético
Como alternativa, os pesquisadores propõem a recuperação do conceito aristotélico de phronesis, geralmente traduzido como sabedoria prática. Na tradição filosófica de Aristóteles, a ideia refere-se à capacidade de deliberar adequadamente sobre o que é justo e adequado em situações concretas.
O estudo diferencia três formas de conhecimento presentes na filosofia aristotélica. A primeira é a epistéme, associada ao conhecimento científico e teórico. A segunda é a techné, relacionada às habilidades técnicas e ao saber fazer. A terceira é a phronesis, entendida como a capacidade de tomar decisões prudentes orientadas pela razão correta.
Segundo os autores, a governança ética da inteligência artificial não deve depender exclusivamente de regras formais ou de cálculos sobre consequências. Esses instrumentos continuariam importantes, mas deveriam estar subordinados à sabedoria prática dos indivíduos envolvidos no desenvolvimento e na gestão das tecnologias.
Formação humana e desenvolvimento tecnológico
A conclusão do artigo aponta para um modelo formativo integrativo. Em vez de optar exclusivamente por regras, consequências ou virtudes, a proposta busca combinar esses elementos a partir da formação moral dos agentes humanos.
De acordo com os pesquisadores, o objetivo não é apenas desenvolver sistemas tecnologicamente eficientes, mas também promover o cultivo do caráter, da excelência moral e da capacidade de discernimento dos profissionais responsáveis pelo design, implementação e supervisão das ferramentas de inteligência artificial.
O estudo sustenta que a ética da IA deve permanecer vinculada ao desenvolvimento humano e ao conceito aristotélico de eudaimonia, frequentemente traduzido como florescimento humano. Para os autores, esse referencial oferece uma base para lidar com as incertezas e desafios morais associados à expansão das tecnologias algorítmicas.
Everton de Jesus Silva: Doutor em Filosofia pela UFRJ e pós-doutorando na UFRRJ.
Fernanda Monzato: Doutoranda em Educação pela UFRRJ.
Confira o Artigo na íntegra: https://www.faje.edu.br/periodicos/index.php/Sintese/article/view/6183




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